Apresentação do blogue

Este blogue é um espaço que, de Segunda a Sexta, irá contar com contribuições de cinco colaboradores, sendo eles pessoas empenhadas e comprometidas na vida eclesial da Arquidiocese de Évora.

Colaboradores

Segunda-feira
Arquitecta Estela Cameirão, Leiga Consagrada

Terça-feira
Drª. Teresa Pereira, Leiga Consagrada

Quarta-feira
P. Senra Coelho, pároco de Nª Sª de Fátima, Évora

Quinta-feira
P. Madureira da Silva, pároco de Santo Antão, Évora

Sexta-feira
P. Francisco Couto, pároco de Nª Sª da Assunção, Elvas

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sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Comentário às leituras do Domingo II do Advento (ano C)

A esperança que desde sempre os profetas anunciaram está quase a cumprir-se: é necessário preparar-se para ela revestindo-se da esplêndida veste da conversão do luto à alegria. Jesus está para chegar e levar à plenitude as «grandes coisas» que Deus fez/faz pelo seu povo.

A primeira leitura, retirada da profecia de Baruc, continua a ser reflexo de Advento! Deus cumpre sempre o que promete! A realidade da mensagem reporta-se a Babilónia e ao cativeiro do povo, anunciando Ciro, que está para chegar e, consequentemente, a queda do império babilónico. O profeta vê nos acontecimentos históricos do seu tempo os sinais da fidelidade de Deus às suas promessas: Israel regressará à sua terra! Contudo, esperar ou confiar implica também recordar o passado (o porquê do «castigo») de forma a viver, no futuro, em fidelidade; é por isso que Deus, quase mãe amorosa, exorta o filho Israel a não pecar mais. O seu desejo não é outro do que o de circuncidar o seu filho (o povo) de amor.

A Epístola de Paulo aos Filipenses apresenta-nos uma forte exortação do Apóstolo a todos quantos abraçaram a causa da fé, os cristãos. Exortação esta que descreve muito bem a vida cristã como uma vida nascida de um acontecimento excelente: a vinda do Senhor e o nosso regresso ao mesmo Senhor! A vida cristã é um crescer contínuo, em tensão constante entre estes dois acontecimentos, e abundante no amor. Para viver desta forma, Paulo sugere duas atitudes imprescindíveis: confiança ou esperança inquebrantável em Deus e nas suas promessas e cooperação ou empenhamento na difusão do Evangelho pela prática do amor.

O Evangelho de Lucas, apresenta-nos neste segundo Domingo o inicio da missão de João, situando-a na história Pretende mostrar-nos que a salvação de Deus, que está para chegar com Jesus e que João prepara, não é algo intemporal, fora do tempo dos homens, mas que se insere numa história e geografia muito concretas. De facto, os projectos de Deus cumprem-se dentro e através da história dos homens. A Palavra que Deus dirige a João torna urgente a sua missão. João tradu-la muito bem através da urgência da mudança ou conversão. Para isso todas as diferenças devem ser superadas, redimensionadas, dar lugar a um modo diferente de exercer o poder; é necessário rever a forma de vida e de organização dos homens que criam divisões, injustiças.

P. Francisco Couto

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Jogo da estima mútua

O percurso mostrava, após cada curva, novas paisagens e deslumbrantes maravilhas da natureza. Havia entusiasmo, satisfação e encantamento nos excursionistas. Porque o trajecto era longo, deu para longas conversas sobre todos os assuntos possíveis – modas, telenovelas, doenças, futebol, netos, religião, política, o passado, o futuro, a educação, as festas. Até houve tempo para muitos comentários, opiniões e segredinhos – invenções surrealistas para tornarem inócuas as murmurações e a má-língua! A proximidade dos assentos convidava a que se falasse a meia voz. Mesmo assim, tanto se cochichava em sussurro, como se diziam novidades em tons mais solenes, como até, de quando em vez, lá saltava uma gargalhada eloquente. Também houve tempo para cantar e rezar. Foi um tempo rápido, porque o dia foi bem passado, sem problemas. Houve quem dissesse que aquele bom ambiente criado pelos excursionistas havia de servir de modelo aos muitos ambientes sociais em que as pessoas estão juntas e convivem: família, locais de trabalho, comunidades paroquiais, comunidades religiosas. E que bom seria se, em vez de um dia (como aquele passeio) fossem milhares de dias! Fruto do entusiasmo, no autocarro tudo se conjugava a que se dessem tais palpites.

Eu fiquei de pulga atrás da orelha. É que pessoas juntas e acomodadas, objectivos e assuntos comuns, opiniões em apreço, e muita conversa – mas tudo num só dia, sem aborrecimentos, sem questiúnculas – não serve de termo de comparação para o que se pensa ser uma comunidade. Um espaço humano assim, por muito bom que seja, é somente uma caricatura de comunidade, uma anedota. As verdadeiras comunidades são outra coisa, têm de ser outra coisa. Não basta juntar pessoas num convento, numa igreja, ou numa casa para se fazer uma comunidade. É necessária uma contínua cedência. Repito: contínua cedência! Para haver comunidade, o primeiro passo é ceder. E, a partir desse passo, nunca mais se pode deixar de ceder. Assim como o ar é essencial à vida, também uma comunidade só respira salutarmente se os membros que a compõem cedem uns em favor dos outros, até mesmo nas coisas em que podem ter razão, em que lhes é devida a primazia e a prioridade. De facto, acontece que, nas comunidades verdadeiras, [sejam religiosas sejam de paróquia sejam de família] há certas pessoas cujo ofício é roubar o oxigénio às outras ou de envenenar o ar antes que alguém o respire. Nunca cedem! Têm as suas manias, obsessões, ideias fixas, pequenos e grandes complexos. E conseguem, com esta mistura, tornar a atmosfera irrespirável. Sob a crosta de uma observância exemplar, escondem um formalismo exagerado e não descansam enquanto não impõem certos comportamentos, os seus. São naturalmente pessoas complicadinhas.

Contrariamente a esta mentalidade, e para provar a essas pessoas que se pode ser diferente, e porque todos formamos comunidades (lar, casa, paróquia), proponho um jogo muito simples: é o jogo da estima mútua. É um jogo sem contra-indicações. É óptimo para crianças, jovens, adultos e idosos. Principalmente para adultos e idosos. Consiste em ver quem consegue apreciar e respeitar mais o outro, quem é mais hábil em descobrir e publicitar uma qualidade alheia, em conseguir falar bem de uma pessoa ausente durante, pelo menos, dez minutos. É natural que alguns não se sintam à vontade neste jogo, por estarem demasiado habituados a ver nos outros só os defeitos e nunca se tenham dignado baixar os olhos para ver que os outros «já não» têm aqueles defeitos porque se esforçaram em ser melhores. O jogo da estima mútua é óptimo para criar espírito de comunidade em qualquer circunstância da vida. É útil e de efeitos maravilhosos. E, apesar de difícil, é o que melhores ambientes proporciona. Estamos certos de que, nas coisas da estima, todos ganham. Neste jogo só perde quem não participa.

P. Madureira da Silva

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Pio XII e a II Guerra Mundial

III

PIO XII E OS HEBREUS NOS CAMPOS DE EXTERMÌNIO

BISPOS DA BÉLGICA

Na Bélgica, o Bispo e os Sacerdotes de Liége, congregaram os Católicos, a 28 de Fevereiro de 1943, para celebrarem um dia de oração por todos os Hebreus perseguidos em todo a Europa. Acerca deste encontro, o periódico católico Appel des Cloches afirmou em Editorial: «Ao encontrarmo-nos unidos neste Domingo na mesma oração pelos Hebreus perseguidos, eles que foram durante um tempo o Povo Eleito de Deus, compartilhamos as directivas partidas de sua Eminência o Bispo»[1]. O pensamento do Bispo de Liége exprimia o pensamento de todo o episcopado Belga.
P. Senra Coelho

[1]Cf. American Jewish Yearbook, 1943 – 1944, Jewish Publication Society, Philadelphia, pag. 263.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Inácio de Antioquia e a unidade e catolicidade da Igreja.

Análise teológica

CRISTOLOGIA

A cristologia inaciana é muito clara no que toca à confissão da humanidade e divindade de Cristo.

Na verdade, o mistério de Jesus desenvolve-se em duas esferas: a de Deus e a da criação. A sua “epopeia” humana inscreve-se na ordem histórica e temporal, em primeiro lugar e de forma remota, a partir da genealogia davídica, e, de forma mais próxima e directa, ao nascer de Maria Virgem. Percorre as várias etapas da existência humana, é baptizado, sofre a paixão e morte na cruz (Cf. Eph XVI,2; XVIII,1), mas participa também, pela ressurreição, da glória do Pai (Cf. Eph II,2; VII,2).

Os títulos cristológicos que utiliza ao longo da Carta aos Efésios são disso um claro testemunho: Médico (VII,2), Homem Novo (XX,1), Senhor (VII,2), Revelador do Pai (XVII,2), Salvador (I,1).

O famoso hino cristológico de Eph VII,2 contém, de forma lírica e poética, uma síntese profunda da sua cristologia. Aí o mártir de Antioquia afirma que existe um único médico (Cristo) que é carnal e ao mesmo tempo espiritual; gerado e ao mesmo tempo não gerado, isto é, eterno; Deus feito homem; nascido de Deus e de Maria; primeiro passível e depois impassível.

De facto, o primeiro termo (carnal) é de origem bíblica, certamente inspirado no prólogo de S. João (1,14): “E o Verbo fez-se carne”. Carnal e não corporal, porque corpo conota, num certo sentido, em S. Paulo (Rm 8,3; Gl 5,17), com a fraqueza e miséria desta carne de pecado. Ora, Inácio pretende deixar bem claro contra os docetas que Jesus Cristo é efectivamente da raça e descendência de David (Eph XXVI,2) e, portanto, um homem como nós (Smyrn IV,6). Sendo Filho de Deus e também Filho de Maria não se confunde com uma figura aparente e, portanto, inventada, mas trata-se, pelo contrário, de “Alguém” que, sendo Deus, se tornou “alguém”, sendo homem.

A contracenar com “carnal” vem a designação de “espiritual”. Esta palavra, na grecidade cristã, significa mais que uma simples oposição à carne. Refere particularmente uma realidade que se encontra para além do tempo, do visível ou, por outras palavras, significa a transcendência ou natureza de Deus. Inácio frisa bem, noutras passagens, que Jesus Cristo, segundo o espírito, encontra-se verdadeiramente unido ao Pai (Cf. Smyrn III,3; Magn I,2).

Impõe-se, contudo, uma observação muito peculiar a respeito do segundo verso do hino cristológico supracitado: gerado e eterno (à letra, gerado e não gerado). Ora, um leitor menos atento ou, pelo contrário, demasiado pertinente, poderá acusar Inácio de heresia. Na verdade, irá ser o termo “aggenetos” a incendiar o universo cristão nos princípios do sec. IV, sobretudo a partir da doutrina ariana, como veremos a seu tempo. Porém, o mártir viveu duzentos anos antes do aprofundamento doutrinal e teológico do sec IV, que iria desembocar depois no símbolo de Niceia (325). Podemos, pois, dizer que a sua afirmação apresenta-se como um paradoxo, mas que pode ser perfeitamente desvendado: gerado e não gerado. A contradição é meramente aparente. E porquê? Precisamente porque o termo possui aqui o sentido filosófico que tinha na altura e, neste sentido, o bispo de Antioquia pretendia apenas exprimir que Jesus Cristo é gerado no tempo e, ao mesmo tempo, eterno.

Todavia, a página mais bela de Inácio encontra-se na exortação pastoral que dirige a Policarpo e com quem havia conversado durante uns dias de repouso em Esmirna, a caminho do martírio. Nesta exortação, deparamo-nos, mais uma vez, com a profundidade doutrinal, o ritmo literário e a emoção relgiosa que paira no coração do mártir: “aprende a conhecer os tempos. Aguarda o que está acima do tempo, o atemporal, o invisível, que por nossa causa se fez visível, o impalpável, o impassível que por nós se fez passível, o que de todos os modos sofreu por nós” (Pol III,2).

Efectivamente, temos que salientar, a partir daqui, a insistência teológica e a precisão literária com que descreve a paixão do Senhor. Falando aos gregos da divindade de Cristo, o bispo de Antioquia adapta-se à sua mentalidade e categorias filosóficas, apontando-lhes os atributos de Deus. O intemporal, invisível, impalpável e impassível tornou-se visível e sofredor de todas as arbitrariedades do homem. Aqui temos, pois, a mensagem de fé e de esperança de todos os tempos ao coração angustiado de todos os homens: o mistério de amor e sofrimento do Eterno por nós. Por isso, a cristologia inaciana mantém a sua actualidade, como que desejando o bispo de Antioquia segredar-nos ao ouvido: “Perscruta esse fogo que te envolve e constrange no tempo e aguarda Aquele que se encontra para além do tempo”.
Drª. Teresa Pereira

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Análise de uma pintura de Lourenço Nunes Varela

Parte I


1. Identificação da Obra
Título: Alegoria da Fundação da Ordem Franciscana
Bem cultural: Pintura
Autor: Lourenço Nunes Varela (1636 – após 1700)
Data de execução: 1675(?) a 1700(?)
Dimensões: Tela 196,00 cm (altura) x 288,00 cm (largura); Moldura 196,00 cm (altura) x 297,00 cm (largura).
Técnica: Óleo sobre tela
Materiais: Suporte em tela, óleo, moldura em madeira.
Localização: Igreja do Salvador de Évora – Coro baixo.
Incorporação: Encomenda das religiosas do extinto Convento do Salvador de Évora – compra.
Estado de Conservação: Deficiente; tela com buraco e marcada pela grade; cobertura cromática com lacunas e bastante sujidade; moldura com marcas de insectos xilófagos.
N.º de Inventário: EV.AN.6.016 pin (Inventário Artístico da Arquidiocese de Évora)

2. Descrição da Obra
Trata-se de uma pintura a tela de forma rectangular, disposta na horizontal. Na pintura está representada uma alegoria à Ordem Franciscana. A pintura é dominada pelas figuras de Cristo e da Virgem que nos aparecem ao centro, na parte superior, sentados sobre uma nuvem sustentada por vários anjos. A Virgem, do lado esquerdo, sentada, com uma coroa na cabeça, com resplendor em seu redor, e um ramo de lírios nos braços, está ligeiramente voltada à esquerda e assistida pelos anjos que estão sobre uma nuvem, colocados no registo superior esquerdo, estende uma coroa em direcção a Santa Clara que se encontra num plano mais baixo e podemos identificá-la pela custódia que sustenta nas mãos e o báculo que se segura, em cuja terminação inferior, posto junto aos seus joelhos e perto dos anjos está um livro. Por detrás de Santa Clara aparecem várias religiosas, e entre elas uma tem em suas mãos uma coroa de rosas. No registo inferior e em primeiro plano, em posição de humildade e devoção, de mãos juntas em oração e ajoelhada no chão, surge a figura da rainha, identificável pela riqueza dos trajes e jóias que a ornamentam, e cuja coroa se encontra no chão perto de si. Por de trás desta uma outra dama da corte, em igual posição de devoção, mas com as mãos em cruz sobre o peito, também ricamente trajada e enfeitada com jóias.

Do lado direito, de uma forma simétrica, a cena reproduz-se mas com Cristo no registo principal e central de toda a cena, envolto num manto vermelho e resplendor em torno de Si, segura a cruz, ajudado na parte inferior por dois anjos, estende uma coroa a São Francisco, assistido pela mesma presença dos anjos, situados no registo mais superior, mas mais à direita da figura de Cristo. São Francisco, situa-se no mesmo registo em relação a Santa Clara, é identificável pelos estigmas que se vêm nas mãos cruzadas sobre o peito. Por de trás deste vários outros franciscanos, alguns seguram uma pequena cruz em suas mãos, um segura um báculo muito idêntico ao de Santa Clara e um outro segura o pendão da Inquisição. Junto a São Francisco, e de forma simétrica em relação à rainha, no registo mais inferior da cena, à direita, aparece-nos uma figura eclesiástica também ajoelhada, pela aparência das suas vestes, uma alva branca e por cima uma casula vermelha, que se apoia no báculo com terminação em cruz com duas travessas e agarra com a mão esquerda um livro. Por de trás deste o rei, igualmente em posição de adoração e de mãos postas em oração, vestido com o manto de arminho e a coroa deposta no chão junto de si. Por detrás desta figura aparece uma outra figura da nobreza, pelo feitio da gola da camisa que veste e pelo seu penteado, sendo visível apenas do peito para cima, percebe-se que se encontra em igual posição de devoção.

Na parte inferior da pintura, ao centro, uma cartela, ladeada por querubins coroados de flores, tendo ao centro os dois braços cruzados de São Francisco e de Santa Clara de Assis, simbolizando os dois ramos principais da família Franciscana.

3. Nota Biográfica do Autor
Lourenço Nunes Varela é o filho mais jovem do mestre pintor Pedro Nunes e de Mariana Varela, que tiveram nove filhos, de entre os quais mais dois foram pintores: Francisco Nunes Varela e Josefa Maria dos Anjos (dizendo desta última o Padre jesuíta José Manuel Fialho, em 1703, que fora «criada entre pincéis, e tintas, disem que já desde o avô, como também outros seus irmãos»[1]).

O contexto social e familiar que envolvia Lourenço Nunes Varela confirma a sua opção de vida, seu pai Pedro Nunes era genro de pintor, pai de três pintores, tio por afinidade de um pintor, amigo e companheiro de diversos pintores, conforme se pode ver pela parcelar árvore genealógica da família, publicada na obra de Vítor Serrão[2].

Foi baptizado em 18 de Agosto de 1636 na igreja de Santo Antão em Évora e segundo a mesma obra de Vítor Serrão sobre os Mestres e oficinas dos centros do Alentejo[3], só o encontramos documentado em 9 de Dezembro de 1671, num instrumento de procuração passado no cartório de Manuel Àlvares, em Mariana Ribeira, mulher do pintor Lourenço Nunes Varela, moradores na Rua de Alconchel, constitui procurador para assuntos particulares. Em 1673, o artista encontra-se na cidade de Lisboa e ocupa o lugar de mordomo da Irmandade de São Lucas, a corporação dos pintores lisboetas sediada no Mosteiro dominicano da Anunciada. Em 1680, ocupa o cargo de escrivão da Irmandade de S. Lucas[4]. Em escrituras notariais citadas, igualmente na obra de Vítor Serrão, podemos constatar que o pintor Lourenço Nunes Varela, uma vez «estante da Corte de Lisboa» foi constituído procurador para aí inventariar os bens deixados a Josefa Maria, filha do pintor Francisco Botado, em 1689, mais tarde em 1693, é o seu irmão Francisco Nunes Varela que também o institui como seu procurador, em certos negócios na capital. Foi o seu irmão pintor Francisco Nunes Varela, que no ano de 1690 lhe dispõe todos os privilégios que tinha recebido por falecimento do irmão Filipe Nunes Varela, militar com relevantes serviços prestados à causa da Restauração.

Lourenço Nunes Varela foi contratado em 1692, pelas freiras do Mosteiro de Santa Marta de Lisboa, em conjunto com o seu «sócio» Miguel dos Santos, para pintar o tecto do sub-coro da igreja.

Sua mulher, Mariana Ribeira, é enterrada em Évora, na igreja de São Francisco, em 15 de Novembro de 1697. Em 1699, por nova procuração é nomeado por André de Mira, morador no lugar de S. Matias, para tratar em Lisboa de certos assuntos da sua fazenda, e no mesmo ano, ainda morador na Corte de Lisboa e estante na de Évora, constitui seu procurador o pintor Francisco Lopes Mendes, morador a São Vicente, em Évora, para este arrendar ou vender em seu nome os bens que «ao presente tem» na cidade e seu termo resultantes dos bens recebidos por morte do seu irmão Francisco Nunes Varela, falecido poucos meses antes[5].

Na segunda parte deste texto: a obra deste autor e a análise formal e compositiva desta pintura.

Arqª. Estela Cameirão

[1]C.f. SERRÃO, Vítor. A pintura proto-barroca em Portugal, 1612-1657. Volume II, p. 634.
[2]Id. Ibid. Volume II, p. 635.
[3]Id. Ibid.
[4]Id. Ibid.. Volume II, p. 799.
[5]Id. Ibid. Volume II, p. 799-800.

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